O
objetivo desta nota das lideranças da Grande Assembleia Guarani e
Kaiowá Aty Guasu é lamentar o atropelamento e morte da liderança Guarani
Kaiowá “Zezinho” ou José de Almeida Barbosa, da terra em conflito Laranjeira
Ñanderu, município de Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul. Além disso, é
socializar a trajetória de luta árdua do Zezinho, que é uma luta comum
às outras lideranças Guarani e Kaiowá.
Ele
era umas das lideranças ameaçadas de morte por lutar pelas efetivações
dos direitos indígenas e justiça. Por essa razão, o Zezinho falava de
forma repetitiva na assembleia Aty Guasu: “Estou lutando pela
recuperação de nossa tekoha antiga Laranjeira Ñanderu, é para nossas
crianças, por isso logo serei morto, eu sei disso. Mas vou lutar até
morrer”.

Assim,
quase todo o dia, Zezinho ia a pé e/ou de bicicleta atrás de
autoridades municipal, estadual e federal para buscar soluções possíveis
para as demandas da comunidade indígena da área em conflito. Por isso mesmo, ele é bem conhecido tanto pelas autoridades federais locais como pelas autoridades nacionais.
Pela última vez, no dia 25 de junho de 2012, o Zezinho saiu de bicicleta do acampamento em conflito Laranjeira Ñanderu para demandar o transporte escolar para crianças indígenas que andam diariamente 6 km para pegar o ônibus escolar municipal.
Durante
o trajeto, o Zezinho foi atropelado e estava no hospital em Dourados
desde 25/06/2012, em estado grave. O Zezinho, infelizmente não resistiu e
morreu ontem (01/07/2012) às 16h00min, no hospital em Dourados/MS.
Diante disso, é importante destacar que uma das preocupações e demandas
do Zezinho é sobre o meio de transporte das lideranças dos territórios
em conflito.
Várias
vezes, ele reivindicava que “as Fundações Federais (FUNAI, FUNASA,
etc.) responsáveis pela assistência e proteção dos Índios deveriam
transportar nós lideranças das terras em conflitos. Nós corremos risco de vida andando a pé pela estrada, muitas lideranças já foram atropelados nas estradas”. Ele repetia essa frase.
Lembramos
ainda que uma vez, na reunião da Aty Guasu, Zezinho falou: “é muito
difícil conseguir carona com pessoal da FUNAI e FUNASA/SESAI, a gente
pede e pede, mas parece que eles não gostam de transportar nós
lideranças não, por isso, hoje vim a pé, andei um pouco e depois pequei
carona, cheguei agora à reunião.”
A
família extensa do Zezinho é originária do território tekoha guasu
Laranjeira Ñanderu, ele nasceu nesse tekoha. Ele é casado tem dois
filhos, quatro filhas e vários netos. O Zezinho, além de reivindicar o
território antigo tekoha guasu Laranjeira Ñanderu, passou a ocupar a
função importante de porta voz da Aty Guasu.
O
Zezinho pregava, de modo similar a demais lideranças Guarani e Kaiowá,
na grande assembleia aty guasu que: “nós lideranças guarani-kaiowá que
lutamos pela recuperação dos nossos territórios antigos tekoha guasu
“nós nunca devemos desistir de lutar pelo nosso tekoha e jamais
abandonar nossos familiares e companheiros de luta”. “Até devemos
morrer, se for preciso pela nossa tekoha guasu, para salvar muita vida e
futuro de nossas crianças”, “mas abandonar a tekoha nunca, porque nos
pertencemos ao nosso tekoha guasu”. Estas são também algumas frases que o
líder Zezinho compartilhava e repetia com frequência.
É
importante destacar que a porta voz e liderança indígena que luta
especificamente pela terra antiga, na tradição e cultura do povo Guarani
Kaiowá, é um cargo vital irrenunciável e imutável.
Baseado
nisso o Zezinho com vida não deve abandonar o território antigo que ele
reocupou com seu grupo de parentela e filhos (as), netos (os), porém o
território antigo reocupado Laranjeira Ñanderu e os parentes foram
abandonados fisicamente por Zezinho no dia 01/07/2012, por que foi
atropelado de forma cruel, somente por isso Zezinho abandonou já sem
vida o território tradicional tekoha guasu reocupado.
No
sentido amplo, com máxima honra e profundo respeito, reconhecemos que o
Zezinho morreu lutando pela terra e justiça, de modo igual às várias
lideranças, tais como: Marçal, Dorival, Dorvalino, Xurite, Genivaldo,
Rolindo Vera, Nisio Gomes, entre outros. Frente a esse fato cruel em que
lutamos e sobrevivemos, mais uma vez, pedimos que seja investigado e
punido o autor e mandante do crime.
Por
fim, destacamos que a luta do Zezinho e das demais lideranças Guarani e
Kaiowá assassinadas citadas acima continuam e continuarão para sempre.
Nós todas as lideranças Guarani e Kaiowá podemos ser morto e/ou
morremos, mas esta luta árdua pela recuperação dos territórios antigos
não morrerá, por ser uma luta justa e digna que por essa razão a luta
justa do ZEZINHO é e será uma luta vital, forte e infinita.
Atenciosamente,
Laranjeira Ñanderu/ Rio Brilhantes/MS, 02 de julho de 2012.
Lideranças/Conselho da Aty Guasu Guarani e Kaiowá/MS
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