segunda-feira, 10 de março de 2008

OS íNDIOS



Também vieram de longe

e plantaram raízes

imemoriais

no jardim de sua eleição

desde a diáspora primeva

da Criação.

Não sabemos se temos

a mesma origem

ou se nascemos já divididos

disputando o mesmo espaço.

Descimentos e preamentos

bandeirantes

dizimaram e escravizaram

índios sem religião

como animais

errantes.

Os sobreviventes estão

confinados em reservas

como num zoológico humano.

Duas culturas não podem

ocupar o mesmo lugar:

ou o índio é integrado

à sociedade

e perde a identidade tribal

ou refugia-se na comunidade.

Garimpeiros, pecuaristas

seringueiros e extrativistas

(caraíbas)

avançam com moto-serras.

O índio não é ambicioso

nem ocioso.

A terra é a existência do índio

-terra de todos, comunitária

terra que é partícula

em movimento e assimilação.

Terra e índio: um vive da outra.

Mãe e filho, indivisíveis.

Terra sagrada

de húmus vivo e fértil

de seus antepassados

com que o índio abona

o inhame, o cará e a taioba.

Em que cultiva, caça e pesca

e colhe, apenas quando

e quanto necessita.

Para o índio não há amanhã

em qualquer sentido pois

o tempo não existe

em sua percepção:

o movimento do corpo

num ímpeto contínuo

(da vontade em ação)

é que move a rede

(e não os pés e a mão)

como move a vida.

Dias alternam-se sem

alterações e altercações

-de pesca, de fruta acesa

que logo vai compartilhar

no complemento do beiju

do pirarucu e do tucunaré.

O fogo está sempre aceso

na aldeia e almas intermitentes

de dormir e despertar

de morrer e renascer:

um tempo dentro de outro

tempo infinito e cego

Fogo feito para irmanar-se

depois de buscar a lenha

que não armazena jamais

para não quebrar a rotina.

Um grande poder de concentração

-e de dedicação extrema-

com todo o tempo do mundo

mas sem a noção de tempo.

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