O
indígena Paulino Terena acabou baleado na perna direita depois que
homens não-identificados atacaram a tiros, na madrugada desta
segunda-feita, 19, a
aldeia e a casa onde ele vive com a família. O terena é liderança da
retomada Pillad Rebuá, território indígena localizado no município de
Miranda, no Mato Grosso do Sul (MS), região do Pantanal, foco de
conflito agrário. Este é o terceiro atentado sofrido pelo indígena em
menos de um ano - na foto ao lado, carro incendiado de Paulino depois de
emboscada em dezembro do ano passado.
“Foram
muitos tiros. Nunca que eu tinha visto tantos assim. Não vieram para
assustar, mas para me matar. Estou bem e não vamos desistir de nossas
terras”, conta Paulino. No final da manhã o indígena saiu do hospital de
Miranda, onde passou por cirurgia para a retirada do projétil alojado
na panturrilha. Ele lembra que acordou por volta das 4h30 com o avô
gritando que a aldeia estava sob ataque. Tão logo ouviu os tiros, pulou
da cama para a porta da casa.
Antes
de abrir a porta, porém, ligou aos guerreiros para que soassem o alarme
aos demais. “Quando sai de casa começaram a atirar. Corri na direção do
meu carro, mas não consegui tirá-lo do lugar. Eu fiquei com a impressão
que um terena tinha sido baleado e então decidi sair do carro. Foi
quando um tiro acertou minha perna”, relata Paulino. Conforme os
guerreiros terena, os homens estavam em carros e motos, mas não é
possível precisar quantos.
Protegido
pelos guerreiros, Paulino foi encaminhado ao hospital. Enquanto era
atendido, conforme a liderança, caminhonetes usadas pelos fazendeiros e
seus capangas passaram a circular pelo entorno do hospital. Com o clima
cada vez mais tenso, a polícia foi acionada. “Eu não tenho nada contra
ninguém. Não é de hoje que me ameaçam por conta da terra. Minha cabeça
tem preço. Para onde eu vou tenho de ir acompanhado”, declara Paulino.
Devido
aos atentados e ameaças, a liderança entrou para o Programa Nacional de
Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, do governo federal, que já
está tratando do caso e acompanhando o indígena terena. Além da luta
pela terra, Paulino também representou o Conselho do Povo Terena em ação
judicial movida contra o Leilão da Resistência, evento organizado por
políticos ruralistas e fazendeiros para arrecadar dinheiro a ser
investido na “segurança” contra as retomadas indígenas.

Em
Miranda a violência contra o povo Terena não começou com a retomada de
Pillad Rebuá. Vem de mais tempo e como reflexo da luta dos indígenas por
suas terras tradicionais. Em 4 de junho de 2011, um ônibus que
transportava cerca de 30 estudantes Terena, a maioria entre 15 e 17
anos, foi atacado com pedras e coquetéis molotov. Seis pessoas,
incluindo o motorista, sofreram queimaduras. Quatro foram internadas em
estado grave.
A
estudante Lurdesvoni Pires, de 28 anos, faleceu, vítima de ferimentos
causados pelas queimaduras. Na época, lideranças terena creditaram o
ataque a proprietários rurais da região, no contexto da disputa pela
demarcação das terras indígenas. No
dia 28 de novembro do ano passado, também em Miranda, um ônibus vazio
que realizava transporte de alunos terena foi incendiado. Ele fazia o
trajeto pela terra indígena Cachoeirinha, também alvo de conflito.
No
dia 6 de dezembro do ano passado quatro homens encapuzados atearam fogo
no carro do indígena depois de emboscada. Tentaram atear fogo em
Paulino, que fugiu para o mato entre os tiros dos pistoleiros. Três dias
depois a casa do indígena foi arrombada. Paulino denunciou à Polícia,
Funai e Ministério Público Federal (MPF) as sucessivas ameaças de morte
que vinha recebendo. No último mês, durante a 4a. Assembleia do Povo
Terena, a comunidade de Pillad entregou uma carta ao Conselho Terena,
relatando que "[fazendeiros] querem a cabeça dele [Paulino] como
troféu".
Histórico
Os
2,2 mil indígenas Terena de Pillad Rebuá, até as retomadas, viviam
em 94 hectares, divididos em duas aldeias, Moreira e Passarinho. Pillad
teve o primeiro registro de reconhecimento pelo Estado em 1904. Um
processo de demarcação teve início em 1950, mas não seguiu.
Em
outubro do ano passado, cerca de 300 indígenas do povo Terena retomaram
duas propriedades localizadas dentro de Pillad, exigindo que fosse
instituído o Grupo de Trabalho (GT) para finalizar o processo de
identificação e demarcação da terra indígena, cuja dimensão apontada nos
laudos iniciais da Fundação Nacional do Índio (Funai) é de 10.400
hectares.
Em 10 de novembro, ainda em 2013, este grupo de Terena que realizou a retomada foi atacado por homens armados, em caminhonetes. Cápsulas
de 9mm foram encontradas no local e entregues à Polícia Federal. Na
sede da propriedade foram encontrados diversos buracos de bala no
telhado, paredes e em um bebedouro.
Dois dias depois, fazendeiros expulsaram à tiros indígenas que
haviam retomado parte de uma outra fazenda que também incide sobre a
área reivindicada como a terra indígena Pillad Rebuá. Um trator
pertencente à comunidade também foi incendiado. Ninguém ficou ferido.
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