Na liminar, os deputados, integrantes da Frente Parlamentar de
Apoio aos Povos Indígenas, pediam que o STF impedisse a criação de
comissão especial e a posterior tramitação, discussão e votação da PEC.
Para o ministro Barroso, apesar da plausibilidade jurídica do pedido,
não se verifica “ameaça suficientemente forte para que se possa cogitar
de uma suspensão do próprio debate sobre o tema”.
Ao analisar a plausibilidade jurídica do pedido - primeiro requisito
para a concessão da liminar -, o ministro destacou que não é descabida a
alegação dos autores da ação de que a proteção constitucional aos
direitos dos índios poderia ficar fragilizada pela atribuição ao
Legislativo da competência para a demarcação das terras por eles
tradicionalmente ocupadas.
“Em linha de princípio, condicionar o reconhecimento de um direito
fundamental à deliberação político-majoritária parece contrariar a sua
própria razão de ser”, assinalou. “Tais direitos são incluídos na
Constituição justamente para que as maiorias de ocasião não tenham poder
de disposição sobre eles”.
Outro ponto destacado foi a jurisprudência do STF no sentido de que a
demarcação de terras indígenas é um ato declaratório de reconhecimento
de direitos imemoriais chancelados pela própria Constituição. “O que
cabe à União, portanto, não é escolher onde haverá terras indígenas, mas
apenas demarcar as áreas que atendam aos critérios constitucionais,
valendo-se, para tanto, de estudos técnicos”, esclareceu.
Embora admita o interesse do Legislativo em participar do debate sobre o
tema, o ministro Barroso alerta para a necessária cautela “para não se
produzir um arranjo em que, na afirmação de fatos antropológicos, um
juízo político venha a prevalecer sobre a avaliação técnica”.
Essas considerações, segundo o ministro, suscitam “relevantes dúvidas,
quanto à validade, em tese”, da PEC 215, tendo em vista não só os
direitos dos índios mas também o direito fundamental da proteção aos
direitos adquiridos “e, possivelmente, até a separação dos Poderes”.
Espaço de debate
Com relação ao risco alegadamente existente na tramitação da PEC -
segundo requisito indispensável à concessão da liminar -, o ministro
lembrou que a Constituição atribui ao Congresso Nacional a incumbência
de ser o espaço público de vocalização de ideias, opiniões e interesses
de todos os segmentos da sociedade, e somente em casos excepcionais se
deve impedir a discussão de um assunto de interesse público.
No caso da PEC 215, o relator observou que a comissão especial criada
para examiná-la deve ser “um espaço democrático e dialético para serem
ouvidas as comunidades indígenas e as autoridades públicas envolvidas,
assim como os titulares de interesses fundiários e negociais”. E
considera “precipitado e, mais do que isso, uma interferência indevida
proibir o funcionamento de uma comissão deliberativa do Congresso
Nacional”. O ministro diz assumir a premissa de que o debate na comissão
será plural e permitirá a exposição e a apreciação de diferentes pontos
de vista.
Independentemente do resultado desse debate, o ministro Barroso lembra
que a proposta terá ainda dois turnos de votação, tanto na Câmara dos
Deputados quanto no Senado Federal. “Diante disso, seria prematuro o
Judiciário se interpor em um processo que está em estágio inicial de
tramitação, antes mesmo de as Casas legislativas terem tido a
oportunidade de amadurecer o debate público correspondente”, concluiu.
Da Redação em Brasília
Com informações do STF
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