segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Desfile de moda Kadiwéu valoriza cultura indígena em MS

O Desfile de Moda Kadiwéu, com estilistas, design, confecção e modelos indígenas, que será realizado no município de Bodoquena, foi antecipado do dia 17 para 16 de dezembro, sexta-feira. O evento, que vem ganhando grandes proporções, está sendo coordenado pela Secretaria de Assistência e Promoção Social, visando prestigiar e valorizar a cultura indígena Kadiwéu, que exerce forte influência na região.

De acordo com informações de Rosana Maria T. Hada, secretária municipal e primeira dama, a expectativa é grande e já desperta o interesse de pessoas até de fora do Estado para prestigiar o evento.


A produtora cultural Luana Salomão e a design de moda Benilda Vergílio Kadiwéu, da Aldeia Alves de Barros, estão empenhadas na realização do desfile, que contará com a participação de indígenas da região e também do município de Dourados.


“Estamos empenhados para mostrar nossa cultura por intermédio dos traços que usaremos nas roupas que estão sendo confeccionadas”, comentou Benilda Kadiwéu. Para dar um “brilho” especial ao evento, segundo a design, haverá a apresentação de um grupo de “rap” indígena de Dourados. O desfile e essa apresentação cultural será em praça pública, abertos a todos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Suícidio na aldeia Bororó

Um indígena de 14 anos cometeu suicídio na noite de ontem (7), na aldeia Bororó, em Dourados. De acordo com o Dourados Informa, o adolescente foi encontrado pela esposa de 16 anos.

De acordo com o site, a jovem relatou que antes de cometer o suicídio, o adolescente estava muito agressivo, pois havia ingerido bebida alcoólica. Em certo momento, ele tentou atacá-la, mas ela fugiu e se escondeu na casa da mãe.

Minutos depois, relatou a jovem, voltou para a casa, e encontrou o marido enforcado, preso por um pano a uma viga de madeira.

Ela informou as lideranças da aldeia, que chamaram a polícia e a perícia.

Guarani Kaiowá


É difícil traduzir em palavras a tamanha crueldade contra os povos Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul: Queima de barracos, intimidações, destruição de plantações, sequestros e assassinatos seguido da crueldade do desaparecimento de corpos. Por detrás dessa violência sem fim se encontra o agronegócio no estado do MS.
O agronegócio e o latifúndio não toleram os indígenas porque os mais de 30 acampamentos às margens da rodovia mantém viva a consciência de que um dia aquelas terras lhes pertenceram, foram o seu tekoha, agora invadida, grilada, roubada e tomada à força. Os acampamentos dos indígenas com seus paupérrimos barracos de lona preta na beira das fazendas interpelam a consciência dos fazendeiros. Os índios são um “estorvo” em meio à paisagem do gado pastando e da vastidão da soja e da cana-de-açúcar.
A essência do conflito na região se dá em função da terra. Segundo a Constituição de 1988, o processo de demarcação das terras indígenas no país deveria ter sido terminado em 1993. Entretanto, as pressões políticas dos fazendeiros retardaram o processo no Mato Grosso do Sul. O discurso dominante propaga a ideia de que demarcações redundam em “muita terra para pouco índio”, mas não se dá conta de que com o agronegócio se tem “muita terra para pouco branco”.
Em documento divulgado faz poucos dias a CNBB é enfática: “Sem demarcação de terras os indígenas do MS seguirão martirizados”.
O recrudescimento da violência contra os indígenas no Mato Grosso do Sul é proporcional a ausência do Estado. Pior ainda, o Estado sul-matogrossense age contra os indígenas. Além de se colocar contra a demarcação das terras, o Estado local não coíbe a violência. Ao mesmo tempo em que há um sentimento de insegurança, desconfiança e temor com a forma como se comporta o Estado local, os indígenas sentem-se também desprotegidos pelo governo federal.
A agressão sistemática contra os povos indígenas e até mesmo a tentativa de eliminá-los está relacionado ao modelo agrícola concentrador de terra e produtor de commodities voltado para o mercado internacional.
Aqui reside a contradição. Quem poderia proteger os mais fracos é o Estado, mas esse permanece preso ao modelo neodesenvolvimentista – ancorado boa parte na produção de commodities. A não confrontação do Estado ao agronegócio como se viu também no Código Florestal, já manifesta uma opção. Nessa equação, perdem os mais fracos, perde o povo Kaiowá Guarani.
Cesar Sanson

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Encontro internacional de Jovens indígenas


A AJI / IWGIA / USP / CONDISI / GAPK

Realizam encontro internacional de jovens indígenas em Janeiro de 2012 na Reserva indígenas de Dourados.

Mais informações: ajidourados@yahoogrupos.com.br
(67) 3422-2617 / (67) 9909-8502

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MS: deputados apontam descaso com indígenas

Para quem trafega pelo trecho da rodovia estadual MS-386 que liga as cidades sul-mato-grossenses de Amambaí e Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, é impossível não notar os barracos onde Mariluce Alves vive com os cinco filhos e sete adultos. No calor amplificado pelas folhas de zinco e pela lona plástica, o pai de Mariluce, José Alves, 71 anos, repousa a perna, atrofiada por um acidente, deitado em uma rede. Das crianças em idade escolar, duas não têm documentos.

Embora sofram com a situação precária, a família Guarani Kaiowá vive nos limites de uma área indígena devidamente reconhecida pelo Estado. Resignado, o aposentado afirma que, apesar do risco de criar as crianças próximo à movimentada rodovia por onde transitam os caminhões carregados de soja e cana-de-acúcar, aquele é o único pedaço de terra disponível para sua família, já que a aldeia está lotada. Vivendo na região há mais de uma década, Mariluce e o pai não cogitam se mudar para longe da comunidade e pedem a atenção das autoridades.

Entre os relatos ouvidos pelos integrantes da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados durante os dois dias em que percorreram a região a partir da cidade de Dourados, no sul do estado, a situação da família Alves representa o que os deputados - a exemplo de entidades ligadas à causa indígena e de especialistas - classificam como “descaso” com que o Estado brasileiro trata a questão.

“Precisamos da presença do Estado aqui em Mato Grosso do Sul. Sem isso, aqueles que se sentem donos da terra e das pessoas acabam por impor sua própria lei”, afirmou à Agência Brasil a deputada Erika Kokay (PT-DF), destacando a urgência de o país reconhecer a gravidade da violência a que a população indígena no estado está submetida.

Segundo o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), 250 indígenas foram mortos em Mato Grosso do Sul entre 2003 e 2010. Embora muitas das mortes sejam resultado de crimes comuns, como brigas entre os próprios moradores de uma comunidade, a maioria está ligada à luta pela terra que índios e fazendeiros travam há décadas.

“É um ataque brutal. O país não pode permitir que dezenas de indígenas sejam assassinados e continuar a crer que está em uma democracia”, comentou a parlamentar. “Temos que buscar instrumentos para acelerar a demarcação de terras indígenas e resolver o problema fundiário, sem o que, nós não vamos conseguir resolver o conflito. Enquanto isso, temos que assegurar a vida das pessoas que lutam para voltar para suas próprias terras. Precisamos impedir a impunidade e aumentar a estrutura dos órgãos do Estado aqui em Mato Grosso do Sul. Fortalecer a Funai [Fundação Nacional do Índio]. E também a Polícia Federal, cuja atual estrutura é insuficiente para responder à demanda e às condições de tensionamento”, completou Érica Kokay.

Para o presidente da Frente Parlamentar Pelos Povos Indígenas da Câmara dos Deputados, Padre Ton (PT-RO), a solução do problema não é simples e exige, além de mudanças nas leis, maior diálogo entre o Congresso Nacional e os poderes Executivos e Legislativo sobre o tema.

“Constatamos que os índios estão sofrendo um genocídio quase igual ao dos judeus durante a 2ª Guerra Mundial. Vimos a miséria, o confinamento, a situação de fome; ouvimos os relatos sobre as ameaças e desaparecimento de pessoas, inclusive de crianças. Colhemos muitas sugestões e notamos que é necessária a participação do governo federal para resolvermos o problema. E que será necessária a união do Poder Judiciário, Legislativo e Executivo”, disse o deputado.

As sugestões e as considerações dos deputados constarão do relatório que os parlamentares irão apresentar à comissão, ao presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), à Presidência da República e a outras instâncias do governo, como o Ministério da Justiça (ao qual a PF e a Funai estão subordinadas) e à Secretaria Especial de Direitos Humanos. “Nosso papel é denunciar as agressões aos povos que são os legítimos donos de nossas terras”, disse Padre Ton.

Em 2009, a Agência Brasil já havia publicado uma série de matérias sobre os conflitos fundiários na região. O especial Duas realidades sobre o mesmo chão mostra as contradições em uma área onde indígenas em condições precárias vivem ao lado de latifúndios prósperos.

União será responsabilizada por conflito

O Ministério Público Federal (MPF) vai pedir que a Justiça Federal responsabilize o Estado brasileiro pela atual situação dos cerca de 50 mil índios Guarani Kaiowá que vivem em Mato Grosso do Sul.

O procurador da República em Dourados (MS), Marco Antonio Delfino de Almeida, planeja entrar com acões civis públicas na Justiça Federal. Almeida adiantou à Agência Brasil que deve impetrar as duas primeiras ações em janeiro de 2012. Segundo ele, poderão ser as primeiras de uma série de ações individualizadas ajuizadas - uma para cada comunidade ou denúncia de violência contra os índios no estado. Se for condenada, a União pode, entre outras coisas, ser obrigada a acelerar o processo de demarcação de novas reservas.

"Isso vai demandar tempo porque, para não sermos levianos, vamos precisar de laudos técnicos que comprovem os prejuízos em cada um dos caso. E também porque apenas dizer que os índios foram prejudicados é muito pouco", declarou Almeida, revelando que o levantamento de informações para comprovar a exata dimensão dos prejuízos causados aos Guarani Kaiowá já foi iniciado.

Entidades ligadas à causa indígena e órgãos governamentais apontam Mato Grosso do Sul como o estado mais perigoso para os índios viverem. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 250 indígenas foram mortos no estado de 2003 a 2010. Embora muitas dessas mortes sejam resultado de crimes comuns, como brigas entre os próprios moradores de uma comunidade, a maioria está ligada à luta pela terra que índios e fazendeiros travam há décadas. Para especialistas, muitos dos crimes entre índios são consequência da situação de confinamento em reservas cuja área se tornou insuficiente para abrigar a todos, da falta de perspectivas ou da perda da identidade cultural, que, entre coisas, ocasiona a derrocada dos tradicionais mecanismos de mediação de conflitos internos.

"Cada comunidade tem um histórico de violência e de mazelas decorrentes desse processo de confinamento, como a desnutrição infantil e a violência. É importante caracterizar como a União contribuiu para isso em cada um dos casos", afirmou o procurador. Para Almeida, a União não apenas tem sido omissa em relação ao conflito fundiário causado pelo estímulo à produção agropecuária no Centro-Oeste, como, inicialmente, contribuiu para que a situação chegasse ao ponto que chegou.

Segundo o procurador, durante as primeiras décadas do século 20, a pedido de fazendeiros recém-chegados ao estado, onde adquiriam, legalmente ou não, terras, a União passou a remover os índios de seus territórios tradicionais. Eles foram concentrados em reservas, liberando as demais áreas para a agropecuária. "Um processo semelhante à formação de guetos de judeus" que, segundo o promotor, resultou na disputa fundiária que já se arrasta há décadas, provocando não só prejuízos aos índios, mas também um clima de insegurança jurídica que prejudica o próprio setor produtivo.

De acordo com a Funai, os Guarani Kaiowá são, atualmente, o mais numeroso povo indígena do país, com cerca de 50 mil pessoas vivendo em Mato Grosso do Sul. A maioria delas vive em situação de miséria, ocupando 42 mil hectares (o equivalente a 420 milhões de metros quadrados ou 42 mil campos de futebol).

Em 2009, a Agência Brasil já havia publicado uma série de matérias sobre os conflitos fundiários na região. O especial Duas realidades sobre o mesmo chão mostra as contradições em uma área onde indígenas em condições precárias vivem ao lado de latifúndios prósperos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estrutura da Funai é insuficiente para lidar com conflito fundiário em Mato Grosso do Sul

Dourados (MS) - A atual estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Mato Grosso do Sul é insuficiente para lidar com o conflito entre comunidades indígenas e proprietários rurais. A afirmação é da própria coordenadora regional do órgão em Dourados, Maria Aparecida Mendes de Oliveira. Localizada na região sul do estado, onde o conflito fundiário é mais intenso, Dourados é a segunda maior cidade sul-mato-grossense.

“A demanda de trabalho é muito grande. Mesmo nas oito reservas indígenas já demarcadas no estado, que abrigam uma grande população, há vulnerabilidade social. E nas áreas menores, onde a densidade demográfica acaba sendo muito alta [devido ao número de habitantes em relação ao tamanho da área], há guetos habitados por uma população étnica desassistida pelo Estado brasileiro, o que leva a um grau de fragilidade muito alto", disse Maria Aparecida à Agência Brasil durante a visita de integrantes da Comissão de Direitos Humanos e Minorias e da Frente Parlamentar Pelos Povos Indígenas ao estado, no último final de semana.

“Por isso é importante a vinda dos parlamentares à região. Abrir espaço para ouvir quem vivencia esta situação de conflito é fundamental e permite aos nossos representantes sentir de perto e compreender a situação que os índios vivenciam. E também a fragilidade da própria Funai neste momento de conflito e tensionamento”, declarou a coordenadora.

Entidades ligadas à causa indígena e órgãos governamentais apontam Mato Grosso do Sul como o estado mais perigoso para os índios viverem. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 250 indígenas foram mortos em Mato Grosso do Sul de 2003 a 2010. Embora muitas destas mortes sejam resultado de crimes comuns, como brigas entre os próprios moradores de uma comunidade, a maioria está ligada à luta pela terra que índios e fazendeiros travam há décadas. E, para especialistas, muitos dos crimes entre índios são consequência da situação de confinamento em reservas cuja área se tornou insuficiente para abrigar a todos, da falta de perspectivas ou da perda da identidade cultural, que, entre coisas, ocasiona a derrocada dos tradicionais mecanismos de mediação de conflitos internos.

“Eles são vítimas da miséria, da fome e do preconceito. Isso acaba por contribuir para a violência interna, de índios contra índios, o que tem contribuído para o crescimento da população carcerária indígena”, comentou Maria Aparecida, comparando a condenação de índios por crimes comuns à demora para que os denunciados por crimes contra os indígenas sejam levados a júri.

“Há uma lentidão por parte da Justiça para julgar os culpados pelas mortes dos índios [vítimas do conflito fundiário que se arrasta há décadas]. A cada nova ocorrência é aberto um inquérito policial. Alguns avançam, mas, de 28 processos judiciais, apenas dois foram a júri”, lembrou a coordenadora, referindo-se aos casos de Marçal de Souza e de Marcos Veron.

Também conhecido como Tupã-Ie, Souza foi assassinado em 25 de novembro de 1983, na Aldeia Compestre Ypê, localizada no município de Antônio João (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai. O fazendeiro, Líbero Monteiro de Lima, acusado de ser o mandante da morte do líder guarani foi absolvido em dois julgamentos. O capataz de Líbero, Rômulo Gamarra, acusado de ser o executor do crime, chegou a ser preso, mas também acabou absolvido.

O segundo julgamento a que ela se refere é o dos acusados pela morte do cacique Guarani Kaiowá, Marcos Veron, e de outros cinco índios. Veron foi morto a coronhadas por seguranças contratados para desocupar a Fazenda Brasília do Sul, em Juti (MS), em fevereiro de 2003. Os acusados Carlos Roberto dos Santos, Jorge Cristaldo Insabralde e Estevão Romero foram inocentados pela morte de Veron, mas condenados por sequestros, tortura, lesão corporal e formação de quadrilha. Coube recurso à decisão, mas a reportagem não conseguiu confirmar se a defesa questionou a determinação da Justiça.

O Ministério Público Federal (MPF) vai pedir que a Justiça Federal responsabilize o Estado brasileiro pela atual situação dos cerca de 50 mil índios Guarani Kaiowá que vivem em Mato Grosso do Sul.

Em 2009, a Agência Brasil já havia publicado uma série de matérias sobre os conflitos fundiários na região. O especial Duas realidades sobre o mesmo chão mostra as contradições em uma área onde indígenas em condições precárias vivem ao lado de latifúndios prósperos.

Alex Rodrigues
Enviado Especial*


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Comissão de direitos humanos vem a dourados analisar denúncias de violência contra os povos indígenas que vivem no Estado

Deputados federais que integram a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara viajam nesta sexta-feira para Mato Grosso do Sul. Eles vão verificar as denúncias de violência contra os povos indígenas que vivem no Estado. Em Dourados, os deputados Domingos Dutra (PT-MA), Erika Kokay (PT-DF) e Padre Ton (PT-RO) se reunirão, de manhã, com lideranças indígenas, no campus da Universidade Federal da Grande Dourados, próximo ao aeroporto local. À tarde, o grupo segue para a Procuradoria da República de Dourados, onde vai se encontrar com autoridades de órgãos como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal (PF).

Amanhã, os parlamentares visitarão os acampamentos indígenas Kurusu Amba, em Coronel Sapucaia, e Tekoha Guaiviry, em Amambai. A comitiva também aproveitará para checar o andamento da demarcação das terras Guarani Kaiowá pela Fundação Nacional do Índio. No último dia 18, o Acampamento Guaiviry foi atacado por pistoleiros encapuzados que, de acordo com os índios Guarani Kaiowá que vivem no local, balearam o cacique Nísio Gomes e levaram seu corpo (que continua desaparecido) e três crianças.

Ontem, a PF prendeu três suspeitos de participar do ataque. Seus nomes não foram divulgados. Devido ao episódio, a comissão classificou a ida dos parlamentares ao estado como "emergencial". Apenas dez dias após o ataque a Guaiviry, índios do Acampamento Pyelito Kue, próximo ao município de Iguatemi, denunciaram que dois homens em uma moto invadiram o local atirando e prometeram voltar.

De acordo com a Funai, os Guarani Kaiowá são, atualmente, o mais numeroso povo indígena do País, com mais de 45 mil pessoas. A maioria delas vive em situação de miséria, ocupando 42 mil hectares (o equivalente a 420 milhões de m² ou 42 mil campos de futebol). Segundo o relatório sobre a violência contra os povos indígenas produzido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 250 indígenas foram mortos em Mato Grosso do Sul nos últimos oito anos.

Na quarta-feira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota em que repudia o ataque ao acampamento Guaiviry e defende a demarcação das terras indígenas como forma de pôr fim à violência contra os índios e à impunidade. "A CNBB, solidária aos Kaiowá e Guarani, reafirma seu compromisso com a defesa de seus direitos constitucionais, especialmente o direito de ter demarcadas e homologadas suas terras ancestrais como assegura a Carta Magna do País", diz a nota.

Resolução garante a indígena optar pelo nome de sua preferência no registro civil


Resolução conjunta aprovada nesta quinta-feira (30) pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ) garante ao indígena o direito de optar pelo nome de sua preferência no Registro Civil de nascimento nos cartórios.

Segundo a norma, no momento do registro, deve ser aceito, a pedido do apresentante, o nome indígena do registrado, de sua livre escolha. A etnia do registrando pode ser o sobrenome, caso seja esta a opção do interessado. Além disso, a aldeia de origem poderá constar como informação a respeito da respectiva naturalidade.

A medida foi tomada porque, segundo a assessoria de comunicação do CNMP, muitos cartórios não estavam aceitando registrar o nome que os indígenas pediam no momento da expedição do documento do documento.

O texto foi elaborado por grupo de trabalho constituído pelo CNJ, com participação do CNMP, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Conselho Nacional de Defensores Públicos Gerais (CONDEGE), da Associação dos Notários e Registradores do Brasil (ANOREG) e Associação Nacional dos Registradores das Pessoas Naturais.

O texto recebeu também manifestação favorável da 6ª Câmara do MPF, especializada na temática indígena e de minorias.

Em caso de dúvidas sobre o pedido de registro, o registrador poderá exigir o Registro Administrativo do Nascimento de Indígena (RANI) ou a presença de funcionário da Funai. Diante suspeita de fraude, o registrador poderá submeter o caso ao juízo competente.

Conforme o texto, os índios que já têm registro poderão pedir, pela via judicial, a correção de seus registros, para fazer constar da certidão itens como o nome indígena e etnia.

A resolução traz também os procedimentos em caso de registro tardio e prevê a assinatura de cooperação técnica entre as entidades envolvidas, para garantir a aplicação e dar efetividade à norma.

As informações são da assessoria de comunicação Conselho Nacional do Ministério Público.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cultura hip-hop se torna canal de mensagens políticas de jovens de várias origens


Eju orendive é o nome de uma canção escrita em guarani por índios das aldeias Bororó e Jaguapirú, localizadas em Dourados, Mato Grosso do Sul. Só que o ritmo é hip-hop e a tradução da letra mostra a intenção de Eju orendive: “Aldeia unida mostra a cara/ Vamos todos nós no rolê/ vamos todos nós, índios festejar/ vamos mostrar para os brancos/ que não há diferença e podemos ser iguais”. A autoria é do quarteto Bro MCs, formado pelos índios Bruno, Clemerson, Kelvin e Charlie, que têm entre 18 e 20 anos.

Em Belo Horizonte, a dupla Bruno Willians & Little G, de 24 e 25, também faz hip-hop de atitude. As letras são bem distintas. Na faixa Missionários, eles cantam: “Junto comigo está a história de Jeová/ Vamos revolver, eu tô pronto para vencer/ O maldito é quem duvida o bendito é quem confia/ Jesus está comigo 100% alegria/ Mudou a minha vida, mudou o meu ser, o que está esperando pra também mudar você?/ Missionário hey/ Missionário hou/ Missionário 100% na paz do senhor”.

Aos 41 anos, o comunista Hertz Dias compõe, na mesma levada, para outro quarteto, o Gíria Vermelha, de São Luís do Maranhão. Lutar é preciso é o nome da música, que diz: “Vai à luta pois teu povo é pobre e sofre/ Se comover, qualquer um se comove/ Então mova-se pra ver se a coisa muda/ A arte pela arte pra nós é surda e muda/ Não, não fede e nem cheira, pra periferia tem que ir pra lixeira”.

De onde eles vêm
Oriundos de realidades, culturas, regiões e convicções diferentes, a única ligação entre os três grupos é o hip-hop. Para eles o som sempre foi uma realidade, mas de formas bem distintas.

Os índios começaram a ouvir hip-hop pelo rádio. Interessaram-se e decidiram escrever letras. Apresentaram-se na escola e a coisa foi tomando forma. Eles vivem como qualquer cidadão brasileiro: estudam, trabalham, ouvem rádio, têm celular e usam transporte público. Falam português e moram numa região marginalizada com outras 15 mil pessoas, beirando o limite da pobreza e sendo vítimas de preconceito pela cor da pele e pela origem.

Apesar da vida exterior, dentro de Bororó e Jaguapirú ainda há caciques, conversa-se em idioma guarani e o índio Bruno garante: “Nada se perdeu da cultura indígena. É uma mistura”. Quem ajudou os Bro Mcs a gravar o primeiro CD foi Higor Lobo, coordenador da Central Única das Favelas, a Cufa de Dourados.

O hip-hop tem a missão intrínseca de transmitir uma mensagem. A dos Bro é direta: “Queremos falar que o índio não é o que pensam: uma pessoa que podem agredir ou rejeitar. O índio é igual a eles. Somos todos iguais, não há diferença”, defende Bruno.

“A gente tem de acabar com esse processo de criminalização constante da juventude negra de periferia”, avisa Hertz Dias, que, com a Gíria Vermelha participa de um movimento ainda maior, o Movimento de Hip-Hop Organizado do Maranhão Quilombo. “A gente acredita que esses movimentos que surgem nas periferias das grandes cidades são de resistência e compostos pela maioria negra, como eram os quilombos”, explica Hertz.

Criado em 1989, o Quilombo tem coordenadores, movimentos de hip-hop, grafite, dança e DJs. Há 22 anos organiza o Festival de Hip-Hop Zumbi Vive, que há seis é precedido por uma marcha política. “Sociedade civil, movimento estudantil, movimentos populares e organizações sindicais realizam a Marcha da periferia, que deu um sentido mais político ao hip-hop”, conta Hertz. Este ano, a manifestação foi contra a criminalização da pobreza.
Bruno Willians & Little G sempre estiveram ligados à arte das ruas. Dançarinos e bboys (o dançarino de break) sempre ouviram o hip-hop. Quando se conheceram, aos 18 anos, frequentavam juntos e freneticamente bailes funk de periferia. Little G lembra que eram os primeiros a chegar e os últimos a sair, dançando sem parar. Mas ele percebeu que tinha algo errado e começou a trocar os bailes pela igreja. “Esses lugares tinham drogas, segurança morrendo, tiro na portaria, ralação, pegação. Aí, fui mostrando ao Bruno o que tínhamos na igreja e ele foi escutando a palavra”. Foi assim que decidiram conversar sobre outras possibilidades e perceberam que tinham, em comum, letras de hip-hop prontas. Formaram o WG Hip-Hop, que já tem cinco anos de carreira. “Nesse tempo, só houve seis sábados em que não ministramos”, comemora Little G. Ministrar é se apresentar em público.

Para onde vão
Bro MCs já apareceram na MTV, foram convidados pelo Ministério da Cultura a se apresentar ao lado de Milton Nascimento. Para o quarteto, é tudo motivo de orgulho. “É uma satisfação. O que estamos fazendo é levar conhecimento daqui para não índios, para que eles saibam como é a realidade daqui”. Na estrada desde 2009, em janeiro os Bro MCs lançam o segundo CD, ainda sem nome.

Para Hertz, da Gíria Vermelha, a música sozinha não consegue mudar tudo. “O hip-hop informa, mas não necessariamente politiza. Ele sozinho não vai organizar um movimento na periferia. A cultura hip-hop entra como mecanismo de sensibilização, para que essa juventude possa reivindicar melhorias para seus bairros e cidades, além de compreender o que é capitalismo ou machismo, por exemplo. Isso dentro do processo de organização política”.

Bruno Willians e Little G também já têm algumas faixas gravadas. Mais ativos nas redes sociais, têm canal no Youtube e Myspace e divulgam seus trabalhos sociais em outros sites – eles ensinam música e dança a crianças e jovens. O disco WG hip-hop gospel 100% na paz do Senhor é vendido nas apresentações. Mas há muitas faixas disponíveis para ouvir on-line. Militantes gospel em tempo integral, fazem questão de encerrar pedindo que Deus nos abençoe imensamente.

CNBB defende povos indígenas e tratamento diferenciado às organizações da sociedade civil

No fim da manhã da quarta-feira, 30 de novembro, a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) concedeu uma entrevista coletiva que abordou três temas: apoio da CNBB aos Povos Indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul; a situação das organizações da sociedade civil após a suspensão do desembolso de convênios, determinada pelo Decreto 7592/2011 do Governo Federal, e, sobre a “Nota Pastoral da Presidência da CNBB sobre algumas questões relativas ao uso indevido, do clero, aos religiosos e a todos os fiéis leigos”.

Em nota, a CNBB reafirmou apoio aos Povos Guarani e Kaiowá que, na manhã do dia 18 de novembro teve o acampamento Tekoha Guaviry, de uma comunidade de índios em Amambaí (MS) invadido por um grupo de 40 pessoas armadas. A ação resultou na morte do cacique Nísio Gomes, 59, e o sequestro de dois outros jovens indígenas.

“A CNBB, solidária aos Kaiowá e Guarani, reafirma seu compromisso com a defesa de seus direitos constitucionais, especialmente o direito de ter demarcadas e homologadas suas terras ancestrais como assegura a Carta Magna do país”, diz um trecho da nota. “Desejamos que a Constituição seja cumprida; é fundamental que sejam demarcadas realmente as terras indígenas, onde isso ainda não aconteceu. Enquanto os indígenas não tem direito à sua terra, é evidente que sempre se criará uma insegurança, uma instabilidade. Há outros que reivindicam as posses dessas terras como títulos, muitas vezes do Governo, que na verdade pertenciam originariamente a esses povos, o que agrava os conflitos”, afirmou o presidente da CNBB, o cardeal dom Raymundo Damasceno Assis, durante a coletiva.

O secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, defendeu que as organizações da sociedade civil não sejam tratadas da mesma maneira quando há repasse de verbas para o desenvolvimento de projetos junto à população brasileira. “A CNBB está preocupada porque todas as organizações sociais foram colocadas no mesmo bolo. Nós, organizações que tem relação com o governo de muitos anos, temos uma probidade inquestionável. A CNBB gostaria que todas as entidades não fossem tratadas do mesmo modo e, naturalmente, muitas dessas organizações são o rosto da nossa Igreja”, disse o secretário.

Dom Leonardo também elogiou a forma com que a presidente da República, Dilma Rousseff, vem conduzindo o processo de combate à corrupção no país. “O Governo age de uma maneira muito correta e a CNBB o apoia no desejo de enfrentar a corrupção”, mas ressaltou: “há a necessidade de um diálogo para esclarecer como fazer os convênios, os contratos, de modo que o dinheiro repassado chegue àqueles a quem deve chegar que são os pobres”.

Uso indevido de termos da Igreja Católica e Código Florestal

Para esclarecer os fiéis sobre o uso indevido de termos por outras denominações que, historicamente pertencem à Igreja Católica, tais como as palavras “católico”, “bispo diocesano”, “vigário episcopal”, “diocese”, “clero”, “catedral”, “paróquia”, “padre”, “frei” e “diácono”, dom Damasceno afirmou que é preciso haver um esclarecimento para que os fiéis não se confundam e freqüentem templos achando que estão na Igreja Católica.

“Há um abuso no uso de certos termos que, dentro de uma longa história, são próprios da Igreja Católica e que são muitas vezes utilizados por outras denominações e confunde os nossos fiéis menos desinformados”, disse dom Damasceno. Ainda de acordo com ele, acontece de fiéis católicos, no interior do Brasil, participar de “ritos e cerimônias de determinadas religiões que usam termos que os fazem pensar que estão na Igreja Católica”.

Dom Damasceno explicou por que os termos causam confusão. “Há casos de pessoas que se atribuem um determinado título dos membros e da hierarquia da Igreja Católica, tudo isso, claro que causa confusão”.

Já sobre a nota da CNBB, que deverá sair no fim da tarde de hoje, 30, sobre o Código Florestal, o secretário geral da CNBB antecipou que o texto irá ressaltar os avanços das discussões no Senado e a insistência da Conferência em pontos que beneficiam a agricultura familiar.

A morte de Nizio Gomes


“Vocês não deixem esse lugar. Cuidem com coragem essa terra. Essa terra é nossa. Ninguém vai tirar vocês...Cuidem bem de minha neta e de todas as crianças. Essa terra deixo na tua mão (Valmir). Guaiviry já é terra indígena”. Nestes termos se expressou o nhanderu Nisio, baleado, agonizante.

Isso foi relatado aos membros do Conselho da Aty Guasu, que foram levar apoio ao grupo e se inteirar do bárbaro ataque. Conforme o relato, três tiros foram disparados em Nisio – nas pernas, no peito e na cabeça. Além do corpo de Nisio, mais três crianças que estavam chorando ao seu redor, foram jogadas na carroceria de uma camionete.

Polícia Federal, Força Nacional e especialistas estiveram no local da execução brutal do nhanderu Nisio Gomes, no tekohá Guaiviary, no amanhecer do dia 18 de novembro. Sangue Guarani-Kaiowá no chão. Rastos do corpo arrastado. Apenas constatações. Um pequeno resto da mata testemunhou mais um assassinato de seus seculares guardadores.

Matam e destroem a mata com a mesma desenvoltura e certeza de impunidade há anos, décadas, séculos. A revolta da Mãe Terra e de seus filhos primeiros chegará. Como diz a canção em homenagem a Marçal Tupã’i: “Chegará o dia em que o alto preço dessa covardia será cobrada pelos Guarani”.

Enquanto isso, as lágrimas e o sangue continuam banhando esse chão em revolta, em gritos, em protesto. Os ouvidos do mundo não estão mudos. O clamor das vidas e da natureza sacrificada diariamente no altar do progresso, da acumulação do capital, do deus dinheiro, não permanecerão impunes!

Que o sangue de Nisio Gomes Kaiowá Guarani se junte ao coro dos guerreiros da vida para juntos nos unirmos no grito que ressoa mundo afora.

A Diocese de Dourados, através de seu bispo Dom Redovino, em manifesto declara: “Ao mesmo tempo em que lamenta profundamente o novo ataque perpetrado contra os povos indígenas, a Igreja Católica presente na Diocese de Dourados renova seu pedido às autoridades civis, judiciárias e militares para que, de uma vez por todas, recorram a todos os meios para pôr fim a uma situação que a todos nos envergonha e oprime, e pede perdão às vítimas de tamanha injustiça e violência, cometida, provavelmente, por pessoas que se dizem cristãs”.

Frente à mercantilização da vida e da natureza, os povos da resistência são portadores de alternativas. É por isso que o sistema da morte procura eliminá-los.

A natureza, a Pachamama (Mãe Terra), a Vida: Não se vendem, Nem se endividam! Se defendem!
Não podes comprar o vento,
Não podes comprar o sol.
Não podes comprar a chuva,
Não podes comprar o calor.
Não podes comprar as nuvens,
Não podes comprar cores.
Não podes comprar alegrias.
Não podes comprar minha vida
Vamos desenhando o caminho...
Vamos caminhando
Aqui se respira luta!
Aqui estamos de pé!
Rua 13-Pasavoz.


Tekohá Guaiviry,
Nisio Gomes Kaiowá Guarani,
Se junta ao batalhão
Dos que tombaram nessa luta
Nativa, milenar!

Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Cimi, 40 anos, equipe Dourados, 19 de novembro de 2011.


Em artigo, Egon Heck do CIMI expressa pesar e indignação face a morte de Nísio Gomes